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NOITE FELIZ FORA DAS TRINCHEIRAS

 


 Entre tantos horrores e traumas, aconteceu na Primeira Guerra Mundial um evento isolado, mas absurdamente insólito e inspirador. Um fato tão bizarro quanto lindo, e não seria exagero dizer que se tratou de um verdadeiro milagre de natal, talvez o maior deles desde o próprio nascimento de Cristo.

 A conhecida “Trégua de Natal de 1914” ocorreu em diferentes partes do front de batalha, e um dos seus mais famosos armistícios se deu nos arredores de Ypres na Bélgica, quando, na noite de natal, alemães decoraram suas trincheiras com pinheiros enfeitados e começaram a cantar, ao que os adversários, no lado oposto, responderam, com suas músicas. Por vezes, uniam suas canções às do “inimigo”, mas cada um no seu idioma. A melodia foi o convite para a paz e, assim, ambas as forças baixaram suas armas e se uniram para lembrar o nascimento de Cristo, com direito a comida, bebida, louvores e missa ecumênica celebrada simultaneamente por um padre escocês para britânicos, franceses e alemães.

 Isso realmente aconteceu, e esse episódio foi encenado com muita beleza e sensibilidade no filme “Feliz Natal”, de 2005, indicado ao Oscar de melhor filme estrangeiro em 2006 e disponível na Brasil Paralelo.

 Aquele espírito fraternal, no entanto, não prevaleceu sobre os objetivos da guerra, e nunca mais houve trégua como aquela, a qual foi condenada pelo alto comando dos dois polos do conflito. Como teria sido o mundo, o século XX, se aqueles líderes tivessem se inspirado nas atitudes de seus guerreiros, que se uniram não só pela paz, mas para celebrar o nascimento do Príncipe da Paz?

 E chegamos a hoje, nesse contexto de pandemia e eleições, em que brigamos, brigamos muito, e várias amizades vem sendo “desfeitas”, “restringidas” e “silenciadas”. A fim de não termos nossos sentimentos feridos, permanecemos entrincheirados. A guerra sem fim travada na internet, em que tudo o que vemos são mensagens que chegam como projéteis atirados do outro lado da terra de ninguém das redes sociais, seria piada para um soldado da Primeira Guerra Mundial, protegido por alguma trincheira de verdade para escapar de metralhadoras reais que não nos deixariam #xatiados, mas Mortinhos da Silva e mais furados do que um típico queijo suíço.

 No natal, e falo isso não só para vocês, mas para mim mesmo diante de um espelho, inspiremo-nos naqueles corajosos soldados para deixar nossas trincheiras e propor uma trégua ou, quem sabe, uma paz definitiva com aquele familiar ou amigo que lhes feriu ou que por vocês foi ferido. Apenas abaixe as armas e cante com ele “Noite Feliz” diante do presépio e sob as luzes de seu pinheiro.

Trailer do filme "Feliz Natal" (2005).

*Imagem: https://aventurasnahistoria.uol.com.br/noticias/reportagem/tregua-de-natal-quando-humanidade-falou-mais-alto-que-guerra.phtml

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