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O ANIVERSÁRIO EM QUARENTENA






No último dia 23, a Glória, minha amada filha, completou dois anos de idade. Evidentemente, sua comemoração não foi como planejamos, pois, embora a festa que ela teria não fosse comparável a que realizamos no seu primeiro ano, certamente seria uma efetiva festa. Ainda que tivéssemos priorizado a família (avôs, avós, dindos, dindas, tios e tias próximos e primos), ainda assim seria um evento razoavelmente grande. Também contrataríamos um "pula-pula", brinquedo que nossa princesa adora.

Contudo, tudo o que imaginamos foi por água abaixo em duas semanas. O "kung flu" (também conhecido como o "vírus chinês", o  "novo coronavirus" e, tecnicamente, o COVID-19), veio como um terremoto, derrubando tudo em nosso país (na verdade, no mundo), a começar pelo nosso planejamento. Enquanto essa doença fazia estragos na Ásia, eu pensava que seria algo agudo, mas que "terminaria" logo, como a SARS, em 2003, ou a MERS, de 2012, entre outras. Não deixa de ser comum ver imagens de orientais indo trabalhar com máscaras cirúrgicas, e pensei que seria um problema que provavelmente acabaria por lá e apenas alguns casos atingiriam o ocidente. Entretanto, foi bem diferente, e justamente por ser menos letal, o COVID-19 se mostra muito mais contagioso, pois a maioria das pessoas que estão infectadas sequer apresentam sintomas, servindo como vetores para outras que, por se enquadrarem nos chamados "grupos de risco" (idosos e portadores de doenças como diabetes, hipertensão e problemas cardíacos), sofrem mais, muitos dos quais acabam vindo a óbito. A consequência é, em pouquíssimo espaço de tempo, o colapso do sistema de saúde (todo o sistema, público ou privado), não havendo espaço, médicos e aparelhos para receber mais ninguém. Quando se lê ninguém, é NINGUÉM MESMO, ou seja, a pessoa que quebrou a perna não tem ninguém para atendê-la; a pessoa que teve um AVC não tem quem a atenda, ou espaço para recebê-la; a pessoa que levou um tiro não tem infraestrutura para salvá-la em nenhum lugar, e assim por diante. O que há é a falência súbita do sistema de saúde, não apenas em relação aos casos do COVID-19, mas a todos aqueles que necessitam de atendimento médico hospitalar.

Mais do que as imagens e vídeos vindos da China e da Itália, o que me fez levar a sério os cuidados com essa doença foram o fato de Donald Trump (EUA) e Boris Johnson (Reino Unido), políticos de viés conservador e, em certa medida, populista em relação aos seus eleitores, líderes das nações que representam o baluarte de nossa civilização ocidental,  entenderam por promover, em escala nacional, o isolamento social. Bom, quando esses caras desses países agem assim, eu, Renan, um mero mortalzinho, tenho que ter o bom-senso e a humildade de levar essa questão bem a sério. Afinal, em um contexto de grande competição comercial entre EUA  e China, é preciso uma justificativa real para abrir mão da produção de riqueza e da própria circulação de pessoas, ainda mais no caso americano em que seu presidente é um empresário que sabe o custo econômico (e consequentemente social) de todo esse sacrifício.

Em Porto Alegre, assim como em todo o Brasil, não é diferente, e há uma semana estou em casa trabalhando remotamente, assim como a minha esposa Roberta. Assim, não houve alternativa e cancelamos a festa de aniversário da Glória. O maldito "kung flu" nos deu esse golpezinho leve, mas ainda assim um golpe, e a comemoração da nossa filha foi ceifada.  Ficamos muito chateados com isso, especialmente pelo fato de nossa pequena não poder compartilhar a alegria de seu dia com seus familiares próximos e priminhos. Mesmo assim, eu a Roberta cuidamos para que o dia da Glória fosse especial.

Durante o fim de semana, ficamos lembrando nossa princesa de que ela faria aniversário na segunda-feira. Perguntávamos-lhe o tempo todo: "Quem vai fazer aniversário?", e ela respondia: "Eu!", ou, "A Glória!", criando a expectativa de que o dia que se aproximava era muito especial. No dia 23, do seu despertar ao adormecer, cantamos "parabéns", desde o clássico "Parabéns pra você", passando pelo "ratimbum", "paz e alegria na lavoura da amizade", entre outros. Em cada uma das vezes, percebíamos o seu olhar de alegria, satisfação e compreensão de que aquele era o dia DELA.

Ela se divertiu com seus presentes e, no final da tarde, ajudou a Roberta nos preparativos de sua festinha com muita alegria e empolgação. Sim, organizamos uma verdadeira festa privada apenas para nós três, mas, mesmo assim, uma festa! Ela usou o vestido que utilizaria na festa original, bordô, além de um lindo laço da mesma cor e um par de sapatos escuros, tudo muito semelhante à Mafalda, aquela mesma, a clássica personagem argentina dos quadrinhos, cuja boneca é, até o momento, a preferida de nossa filha. Enfeitamos a mesa, colamos a frase "FELIZ ANIVER" na parede, assim como vários balões, e escrevemos o nome da nossa princesa no nosso espelho da sala de estar. Como comilança, cupcakes e um bolo de banana, aveia e uvas passas para ela, e outro, "não saudável", de cenoura com cobertura de chocolate para os pais. A comida salgada ficou por conta de biscoitos de polvilho e uma deliciosa pizza congelada comprada em nosso rancho do apocalipse, alguns dias antes, e a bebida foi uma garrafa de água com gás. Nossa querida vizinha de condomínio Letielle nos presenteou com uma garrafa de espumante, a qual nos alcançou pela janela, concedendo um luxo para mim e a minha esposa.

Na hora do "parabéns" pra valer, o da velinha, fizemos uma chamada de vídeo em grupo com a minha família e a da Roberta. Com toda a nossa "família nuclear" virtualmente unida, cantamos o "parabéns pra você", e a Glória achou o máximo. Depois, como uma rainha, sentada na mesa e tendo à sua frente todas as já citadas guloseimas, começou a comer, e a deixamos fazê-lo sem restrições, salvo em relação ao bolo de cenoura com cobertura de chocolate (ela ainda não come doces). Mandou ver!

Sempre com um lindo sorriso em seu rosto, dançamos muito ouvindo suas músicas preferidas, passando por várias da Galinha Pintadinha, do Mundo Bita, Baby Shark, além de tantas outras que ela aprende na escola, como "Sapo Cururu" (não aquela do Raimundos...),  "A Baleia e a Sereia" e "Papai Dedo Mamãe Dedo". Divertiu-se com seus novos presentes, brincou conosco com seus balões (todos para ela) e recebeu vários vídeos de feliz aniversário de seus coleguinhas de creche, agradecendo individualmente a cada uma delas. Ainda deu tempo de fazermos uma ligação para a minha dinda Ângela e meu dindo Antônio, que, juntamente com minha prima Ana Clara que com eles divide esse período de quarentena, deram vários parabéns para a nossa filha.

No final, como diria nossa querida amiga Talita Pereira, ela praticamente "desligou o avatar", e quase desmaiou de tanto sono. Limpamos seu nariz, escovamos os seus dentes e a levamos para a cama. Oramos juntos agradecendo pelo dia abençoado que tivemos e, logo depois do "amém", ela disse, dengosamente e no seu dialeto bebezístico: "Apaga a luz...". Atendemos ao seu pedido e lhe demos um doce boa noite. Um adormecer sereno e e tomado, visivelmente, por um cansaço gostoso. Ela curtiu o dia e transmitiu isso em cada sorriso, em cada pulo.

Fui dormir lá pelas 2 horas da madrugada, pois coube-me lavar a louça e limpar a sujeira de nossa festança. Também adormeci tomado pelo cansaço de quem curtiu um momento muito agradável.

Quarentena... Na Bíblia, o número "40" tem um significado de transformação, de mudança, de provação. O período do dilúvio foi de 40 dias e 40 noites, o povo judeu ficou sem terra, no deserto, por 40 anos, e Jesus, antes do início de seu ministério público, passou 40 dias no deserto. Assim, esse período, que pode ser maior ou menor do que 40 dias (será maior, acredito eu), deve ser utilizado para refletirmos de forma profunda sobre nossas vidas e o que de fato merece ser valorizado. No caso do aniversário da Glória, o seu aniversário em quarentena não teve uma festa grande, mas certamente foi uma grande festa! Uma festa em que, sob as bênçãos de Deus, valorizamos o mais importante: , a vida da nossa amada filha e o nosso amor em família!


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