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O QUE “YOU”, “COBRA KAI” E “NÃO OLHE PARA CIMA” TÊM EM COMUM?

 


Afinal, a arte imita a vida ou a vida, a arte? Difícil responder. Agora, se há uma certeza, é que a lacração nas telas e aquela que influencia ou pela qual é influenciada começa a ser questionada com muita ironia.

 Alguns dos recentes sucessos da NETFLIX trazem isso com muita precisão. O suspense tragicômico YOU, a nostálgica série de ação COBRA KAI e o satírico filme NÃO OLHE PARA CIMA vão além de suas propostas originais e têm o mesmo pano de fundo: uma sociedade superficial, vigilante, covarde, autoritária e com valores distorcidos.

 Enquanto YOU foca na falsidade de influenciadores digitais em sua busca por constante aprovação e na cultura de cancelamento que rompe os limites das telas e alcança as relações pessoais, COBRA KAI mira a pusilanimidade do espírito adolescente contemporâneo e a sua ausência de referências culturais que sejam providas de valor. Por fim, NÃO OLHE PARA CIMA certamente pesa a mão contra mentiras e meias-verdades promovidas pela mídia tradicional e redes sociais, o que na própria história denominam de “dourar a pílula” dos fatos em discussão. O filme, acima tudo, ataca a interdição dos debates (a censura moderna do mundo “democrático”), a qual se dá com cancelamentos por meio da mídia e perseguições políticas que, na obra, chamam de “retirada de cena”.

 Cada uma dessas produções merece análises específicas e profundas, mas é interessante que todas tenham se deitado sobre esse mesmo colchão. Não é difícil distinguir a lacração da ironia à lacração, a propaganda do deboche, as promoções de ideias das críticas a essas promoções. Machado de Assis era mestre nisso, entrando na alma humana com precisão e desnudando o leitor diante de um espelho. Quando bem feita, a ironia envergonha o ironizado sem ofendê-lo, tendo um papel realmente edificante.

 Em tempos de censura nas redes e na grande mídia, perseguições políticas e judiciais a determinadas opiniões e de linchamentos virtuais, a ironia se revela como uma alternativa inteligente para a liberdade de expressão, e acredito que o filme e essas duas séries tenham acertado a mão nesse objetivo. Que venham outras produções como essas, habilidosas para romper o lacre diário que busca, entre outras coisas, o silêncio de quem pensa diferente.

 

 

  

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