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Ensaio Sobre a Cegueira

Não, essa crônica não trata sobre o filme baseado na obra homônima de José Saramago, mas sobre outra cegueira que me aflige: a dos técnicos de futebol.


Entra ano, sai ano, entra técnico novo, sai técnico. Muitos desses profissionais, de fato, são contratados para treinarem equipes cujos jogadores são ruins de doer e, sem levar em consideração esse fator e pensando que o treinador é um milagreiro, os dirigentes acabam punindo-o por todos os problemas da equipe, muitas vezes para ofuscar o fracasso das contratações empreendidas. O que é revoltante, no entanto, é quando um treinador tem em mãos um elenco qualificado, mas faz opções equivocadas e, pior ainda, insiste nelas, mesmo sendo gritante o equívoco, o qual é percebido tanto por críticos oficais, como jornalistas e comentaristas em geral, quanto pelos torcedores e, até mesmo, outros dirigentes.
Deve haver alguma explicação para isso. Tenho algumas teorias:


1) o treinador é cego e literalmente não vê o que acontece em campo, não havendo explicação alguma para suas opções, as quais se baseiam única e exclusivamente na sua vontade aleatória;
2) o treinador é esquizofrênico e vive uma realidade paralela na qual enxerga e avalia coisas que apenas ele vê, convencendo-se de que isso se trata da verdade;
3) os jogadores questionados, porém sistematicamente escalados (ditos "bruxos"), fazem treinos espetaculares que enchem os olhos e a expectativa do treinador, apesar de não serem nem sombra disso nos jogos de verdade;
4) o ângulo pelo qual o treinador vê o jogo (a partir da casamata, no nível do campo, diferente dos torcedores e jornalistas, que ficam alguns, ou muitos, níveis acima) permite que ele perceba detalhes técnico-táticos dos seus atletas que ninguém, além dele, é capaz de notar;
5) o treinador tem uma relação de "afeto" muito, mas muito forte com o questionado jogador que escala;
6) o empresário do jogador, ou o próprio jogador, paga ao dirigente um "mensalão", exigindo, como contrapartida, a imposição da direção sobre o treinador para que a escalação do atleta que agencia ocorra;
7) o treinador recebe o dito "mensalão" diretamente do agente do atleta, ou do próprio atleta.


Teoria e teorias. No entanto, em termos de probabilidade, podemos fazer uma severa peneira nelas. Vamos, então, às refutações:


1) Que time contrataria um treinador cego? Jogadores cegos até podem existir (como vemos nas paraolimpíadas, por exemplo), mas treinadores precisam ver o que acontece para passarem as orientações. Posso estar enganado e, se assim for, corrijam-me. De qualquer forma, volto a perguntar: que clube contrataria um treinador cego? E, se assim o fizesse, saberia que ele é cego, logo, não haveria mistério. E não só a direção saberia, mas todo mundo. Descartemos, então, essa possibilidade.


2) Se o treinador for esquizofrênico, ele irá revelar isso em outras atitudes, como, por exemplo, falando sozinho, ouvindo vozes e vendo outras realidades paralelas não necessariamente relacionadas com o que acontece em campo. Assim, dizer que o treinador é esquizofrênico apenas quanto ao ocorrido em campo é forçar muito a barra para justificar suas opções equivocadas. Portanto, tal possibilidade também merece ser refutada.


3) Muitos treinos são secretos, mas nem todos. Não é possível que o "super bruxo" demonstre suas habilidades espetaculares apenas nos treinos fechados, os quais não podem ser avaliados pelos jornalistas e torcedores. Depois, mesmo que o desempenho desses atletas em treinos fosse incrível, nada justificaria mantê-los depois de vários jogos sem ter havido a respectiva correspondência em campo. Sempre, nesses casos, sou forçado a recordar-me do exemplo do centroavante Adão. No ano 2000, ele foi contratado pelo Grêmio às pressas do Caxias, clube pelo qual, semanas antes, havia sido campeão gaúcho. Em um treino suspeito o centroavante marcou seis gols e a torcida lotou o estádio para assistir à sua estréia. Três rodadas depois, ele já era reserva. Moral da história: "jogo é jogo, treino é treino", como dizia o sábio Didi, o inventor da "folha seca".


4) Se o ângulo pelo qual o treinador vê o jogo fosse justificativa, então os jornalistas que ficam à beira do gramado sempre concordariam com ele, assim como os gandulas e alguns torcedores. Logo, tal possibilidade não tem cabimento.

As próximas possibilidades, no entanto, são plenamente plausíveis. Apresento as justificativas.


5) Todos sabem que esse tipo de relação de afeto é muito comum no futebol. Logo, não haveria motivo para descartar essa possibilidade. Evidentemente, como jogadores e treinadores são pessoas públicas, na hipótese de haver essa "forte relação de afeto" entre eles é necessário que a descrição seja muito grande, quase perfeita, para que ninguém perceba. Essa relação de afeto não precisa ser necessariamente "aquela", mas a de simples, porém fiel e cega, amizade. Uma hipótese bem plausível, portanto.


6 e 7) No mundo e, com mais destaque, no Brasil, a corrupção é tão comum quanto respirar e abrange, infelizmente, todos os círculos sociais e profissionais. Logo, jamais poderemos duvidar de tal possibilidade. Pelo contrário: dentre todas as listadas, essas duas são aquelas que se apresentam com mais força e ajudam a explicar muitas das escolhas sem sentido de treinadores, bem como contratações completamente sem fundamento feitas pelos dirigentes.


Agora, se tivermos que optar entre as hipóteses 6 e a 7, creio que a 6 seja a mais plausível. Um treinador de um grande clube, por exemplo, recebe entre 100 e 200 mil reais, por exemplo. Um dirigente, por sua vez, não recebe nada, pois seu cargo não é remunerado. Agora, convenhamos: ninguém é ingênuo para pensar que um cara dedique 24h do seu dia sem receber sequer um centavo em troca para se incomodar com a vida do clube. Quando digo "vida do clube" estou me referindo ao dia-a-dia de treinos, relação com jogador, busca por jogadores no mercado, viagens, jogos, discussões, questões de dívida, etc. A princípio ninguém ganha nada, mas quem vai se estressar de graça? Depois, que explicação pode haver para a contratação de determinados jogadores ruins e, pior que isso, na insistência na contratação desses jogadores? Assim, o mesmo motivo que leva os dirigentes a contratar esse jogador é aquele que o fará ser sistematicamente escalado, mesmo que suas atuações sejam sofríveis e comprometam o time. O treinador aceita isso porque não quer ser mandado embora (o que não é uma justificativa); outros se recusam a fazê-lo e são mandados embora no primeiro tropeço. Mas é plenamente possível, como aventado na hipótese 7, que o próprio treinador receba o "mensalão" diretamente do jogador ou de seu empresário. Só acho que as chances de coagi-lo a tal são menores pelo fato do treinador ser (bem) remunerado. A hipótese 7, contudo, explicaria bisonhas indicações de "atletas de confiança" feitas pelo treinador.


Conclusão: a hipótese MAIS PROVÁVEL, na minha opinião, é a número 6. A 7 vem logo em seguida e também é perfeitamente plausível. Por último, resta a 5. No entanto, como dito anteriormente, sopesando as três, a hipótese 6 como a mais provável se justifica pelo forte argumento de que os dirigentes oficialmente nada recebem pelo trabalho que fazem, o que, somado ao meio em que se encontram, é um campo fértil para a corrupção, que é parte podre da cultura brasileira, presente em todas as áreas públicas e privadas.


E vocês, o que acham?

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